Em 2013, eu, vinda de Minas Gerais, Belo Horizonte, ela, vinda da Bahia, Jaguaquara, encontramo nos em um evento em
Santa Catarina, Florianópolis, e, antes tão distantes na geografia, logo nos reconhecemos almas irmãs: Sonilda e eu. Uma
surpreendente combinação de acasos, surpreendente e rara, uniu duas pessoas igualmente comprometidas com uma educação de
qualidade, promotora de justiça social, construída sobre o respeito às diferenças, uma educação que sobretudo garanta igualdade e equidade a crianças e adolescentes em geral desamparados em uma sociedade que trata de forma desigual os que são ricos e os que são pobres, os que são urbanos e os que são do campo, entre tantas
outras discriminações. E também por isso nos descobrimos ambas discípulas de Paulo Freire, ambas em busca da utopia que esse nosso mestre sempre perseguiu.


Utopia? Paulo Freire gostaria de ver a utopia feita realidade, foi o que eu pensava quando Sonilda me contava sobre a ERTE, e eu ouvia embevecida. E recordava as palavras de Paulo Freire que têm sido minha permanente inspiração e minha orientação na vida: Se, na verdade, não estou no mundo para simplesmente a ele me adaptar, mas para transformá lo; se não é possível mudá lo sem um certo sonho ou projeto de mundo, devo usar toda possibilidade que tenho para não apenas falar de minha utopia, mas participar de práticas com ela coerentes.

Sonilda e essa maravilhosa equipe que com ela construiu a ERTE transformaram o mundo de um grande número de crianças e
adolescentes camponeses, para os quais tinham um certo sonho ou projeto de mundo, uma utopia da qual não se limitaram a falar, mas construíram, com práticas com ela coerentes, em apenas 15 anos, historicamente um curto tempo, uma realidade que é essa admirável escola comprometida com uma educação de qualidade que garante igualdade, cidadania, direitos, respeitando as condições de vida, a cultura, as expectativas dos que vivem no campo.

A minha vida tem sido dedicada à luta por uma escola pública que promova equidade, justiça social, igualdade de direitos
para os grupos oprimidos da sociedade, mas diante da ERTE, dos 15 anos da ERTE, me sinto pequena, porque ainda longe de ver realizada a utopia que persigo, mas me sinto também feliz e gratificada, porque a utopia se fez realidade em Jaguaquara, na
Escola Estadual Rural Taylor Egídio, a ERTE: em algum lugar deste país um grupo vem transformando o mundo, um grupo vem comprovando que é possível transformá lo, que sonhos podem realizar se.


Eu me sinto feliz por saber da utopia feita realidade; Paulo Freire se sentiria feliz se ainda entre nós estivesse e soubesse de sua
utopia feita realidade. Assim, tenho a audácia de dizer que é não só em meu nome, mas também no dele, nosso mestre, que escrevi este prefácio.

Prefácio por Magda Becker Soares

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